Quem viveu a época da televisão como principal forma de consumir conteúdo provavelmente lembra bem de uma coisa: a gente tinha horário para assistir às coisas.
A novela começava em determinado horário, o jornal também, o jogo fazia todo mundo parar e, quando tinha uma estreia, uma final ou algum programa especial, você precisava estar na frente da televisão naquela hora. Era normal organizar parte do dia pensando nisso. Tinha programa que a gente sabia exatamente o dia e o horário e, quando chegava a hora, todo mundo estava na frente da TV.
A internet e principalmente o streaming mudaram completamente essa relação. De repente, não precisávamos mais adaptar nossa rotina à programação. A programação passou a se adaptar à nossa rotina. Você podia assistir quando quisesse, parar no meio, continuar no dia seguinte ou simplesmente deixar para depois.
A gente se acostumou muito rápido com isso. Só que agora estamos vendo um movimento interessante: o horário marcado está voltando.
Talvez uma das razões esteja justamente na quantidade de conteúdo disponível hoje. Tem tanta coisa para assistir que praticamente nada precisa ser visto agora. Uma série pode ficar para amanhã, um vídeo entra na lista, um documentário espera o fim de semana. E muitas vezes esse “depois eu vejo” simplesmente nunca chega.
O ao vivo cria uma dinâmica diferente. Um jogo começa naquele horário, uma premiação acontece naquela noite, um show está acontecendo naquele instante. Você pode assistir depois, claro, mas já não é exatamente a mesma experiência.
E é curioso perceber que plataformas que cresceram justamente com a ideia do “assista quando quiser” estão explorando cada vez mais esse comportamento. A Netflix, por exemplo, vem aumentando sua presença em esportes e eventos transmitidos ao vivo. Outras plataformas seguem movimentos semelhantes, buscando novamente essa sensação de acompanhar alguma coisa junto com milhares ou milhões de pessoas.
Depois de tantos anos deixando a grade de programação para trás, estamos, de certa forma, redescobrindo o valor de dizer: “é hoje, às 20h.”
Só que existe uma diferença importante em relação à televisão de antigamente. Antes, basicamente sentávamos para assistir. Hoje podemos assistir e participar ao mesmo tempo.
Chat, perguntas, enquetes e votações fazem com que parte da experiência exista apenas enquanto a transmissão está acontecendo. Quem assiste depois ainda tem acesso ao conteúdo, mas já não participa daquele momento.
E é justamente aí que essa discussão começa a ficar interessante também para as empresas.
Durante muito tempo, a transmissão corporativa foi vista principalmente como uma forma de permitir que quem não estava fisicamente no evento pudesse acompanhar pela internet. Isso continua sendo importante, mas hoje dá para pensar além.
Imagine o lançamento de um produto. A empresa pode gravar uma apresentação, publicar e divulgar. Ou pode anunciar que, na quinta-feira, às 15h, vai apresentar uma novidade, divulgar os convidados, abrir inscrições, mandar lembretes e permitir que o público participe durante a transmissão.
A informação pode até ser parecida. A experiência não.
No segundo caso existe expectativa e existe um momento em que as pessoas estão reunidas em torno daquele conteúdo. Isso pode funcionar para lançamentos, convenções, apresentações de resultados, treinamentos, encontros com lideranças e vários outros formatos corporativos.
A televisão sempre soube trabalhar muito bem essa expectativa. Durante dias víamos chamadas para um programa que aconteceria em determinado horário. Hoje temos ainda mais possibilidades para fazer isso, usando redes sociais, teasers, inscrições, convidados e lembretes para despertar interesse.
Se queremos que alguém reserve parte do dia para uma transmissão, precisamos dar um motivo para isso.
E existe ainda uma grande vantagem em relação à televisão de antigamente: hoje o conteúdo não desaparece quando o evento termina.
A transmissão pode continuar disponível e ainda gerar cortes, entrevistas, highlights, conteúdos para redes sociais e materiais internos. O ao vivo reúne as pessoas naquele momento e o conteúdo gravado continua circulando depois.
Talvez por isso o appointment viewing esteja voltando a fazer sentido. Durante décadas já sabíamos como era parar para assistir alguma coisa juntos. Depois, a tecnologia nos deu liberdade para assistir praticamente qualquer conteúdo na hora que quisermos.
Agora parece que estamos encontrando um equilíbrio entre essas duas coisas.
Não estamos voltando para a televisão de antigamente. Estamos recuperando algo que ela fazia muito bem — reunir pessoas em torno de um mesmo momento — e juntando com tudo o que o digital permite hoje.
Para as empresas, talvez a oportunidade esteja justamente aí: criar transmissões que não sejam apenas conteúdos disponíveis para assistir, mas momentos que façam as pessoas realmente quererem estar presentes.


